27 de Fevereiro de 2011 – O dia do Índio
07:00 - Alvorada. Levantar, vestir, lavar os dentes e levar o RIFT à bomba de gasolina para atestar com gasóleo. Cheios os depósitos com 200Lts de Gasóleo e ainda os Jerricans. Atestados os depósitos de água.
Fomos à procura de pequeno almoço. O Pina estava fechado mas a D. Mónica foi uma querida e abriu-nos a porta para tomarmos o último cafezinho antes da partida. Limpámos os bolos que ainda tinham sobrado do dia anterior.
Preparativos concluídos, o Rift partiu. Na doca estava o Índio a despedir-se de nós.
09:10 – Saída de Lisboa
10:00 – A passar na Barra
Marcou-se um waypoint no GPS com direcção à Ilha Terceira – Açores.
Molhe – Rumo 275 – 825 Milhas para a Terceira.
Saímos com vento 15kts/NNE
Vento subiu para 30kts/N
Vaga 5m pelo través a rebentar
1º Rizo... 2º Rizo ... Arriámos a Vela Grande. O barco ficou mais estável.
O barco deita-se muito – pouco patilhão.
Vamos com 1/3 de Genoa, velocidade 5,5kts rumo 270º
A vigia da cozinha pinga
Passamos o corredor ascendente.
O skipper vai lá abaixo e uma vaga súbita lança-o no ar pela cabine contra a porta do WC partindo a dobradiça de cima, abrindo a porta e deixando-o sentado no chão do wc a sangrar das costas e com um grande alto na cabeça. A Carolina assiste ao sinistrado.
Marco vomita pela primeira vez (foi à orça). Carolina começa a ficar mal disposta.
Os marujos comem maçãs para acalmar o estômago.
Marco quando viu Vasquinho a entrar no camarote em tronco nu disse que o espaço era apertado.
A roda de leme de EB deu dois traques fortes ?!?
Piloto automático funciona bem.
14:30/Lisboa - Posição 38º39’,20N / 010º01’,36W
Avistamos ave grande ponta preta asas e pescoço amarelo. Também peixe lua.
Jantar sopa de legumes com pão e ovos da marina – a Carolina não comeu. O Marco depois de ter ido à orça (vomitado) 6 vezes, comeu a custo a sopa e recolheu ao camarote para dormir.
Noite tramada a lutar contra a vaga e o vento forte
28 de Fevereiro de 2011 – Dia do balde
08:00 – Posição 38º41’,31N / 011º49’,60W – Rumo 300 Distância à Terceira: 712mn
Temos apenas 2h de motor.
O piloto automático pifou. Liga-se e roda a proa em direcção ao vento.
Electrónica/GPS desaparece barco e faz reset.
Barco não tem água debaixo dos paneiros.
Perdemos o meu balde mas salvei os cabinhos dele.
Noite – 1/4 de Genoa e mesmo assim o barco deitava-se todo e as ondas rebentavam para dentro. Vento de 30kts/N 5-6m ondas pelo través – SOG 5kts.
Hoje mandei toda a gente lavar os dentes, fiz café e cereais, o Marco deitou todos fora, mas já anda ao leme.
Tivemos um Big ship vindo do norte, falámos com ele e ele desviou-se.
O dia vai ser bom, já caguei, haaaa.
13:00h – Posição 38º43’,10N / 012º23’,00W – Rumo 275 – SOG 6,5kts – 685nm para Terceira. Vento NNE/20kts, vaga N 3-4m.
Pessoal a cozinhar arroz de peixe, Marco ao leme e eu a escrever.
Marujos mais animados. Singradura -> Lisboa -> 150nm.
Já cheira bem, hummmmm.
Apoio de terra – Palex informou de melhoria das condições he he.
01 de Março de 2011 – Dia do parafuso
13:00h – Posição 38º50’,44N / 015º28’00W – Rumo 270 – SOG 7,0kts – 540nm para Terceira. 52h de navegação – 290nm percorridas.
Motor +4h -> total 6h
Vento NE 15/25kts – Genoa toda aberta
Max speed 10,2kts / mar 2mts razoável.
Barco continua mesmo assim a deitar.
Noite boa, quartos de 2h – Tia e Vasco – Marco e Nuno.
Fizemos chá e sandes para meio da noite
Descobriu-se a avaria do piloto. O parafuso que fixa o macaco não está lá, tentei reparar com um cabo mas porca cónica não sai. Amarrei o macaco ao veio para não dar traques (daí os traques do 2º dia)
Plotter continua a falhar – passamos a tirar pontos de 6 em 6h.
Avistámos pequenas aves e golfinhos.
O Marco já tira fotos, dá-me água à boca e eu dou-lhe sandochas.
Vasco ensinou a Tia a andar ao leme e muito bem.
Almoço de feijão frade com atum e ovos/etc.
Tomámos todos banho de dodots pois o mar não deixa mais.
Barco em bom estado geral. Motor OK, água no fundo nada.
Marujos muito mais animados.
Falei com o dono – só comuniquei o problema do piloto – o resto tudo bem.
Bandeira portuguesa em farrapos.
Falei com Miguel sobre assuntos do barco
02 de Março de 2011 – Dia longo de emoções (porquê? Sol!)
No almoço de ontem tivemos um problema grave, para beber o tinto ninguém tinha saca-rolhas. Resultado, o skipper inventou e apanhou banho de vinho mas conseguiu.
Houve o momento Taru, a foto explica.
Jantar, sopa de marisco com ovos escalfados, misturada com tigela no chão do salão. Há, também houve aperitivos!
Noite boa média 6kts, mar bom e estrelas.
Aula de como cagar a bordo: ao fazer vá com o buraquinho partindo o “senhor” para não entupir a sanita, há que misturar água.
Amostra de pesca na água e temos hoje tripulação nova, tomámos banho (a sério).
Almoço vai ser bacalhau à brás.
Tivemos o momento “Zen” ao nascer do sol com fotos e tudo.
A bordo também houve lavagem de roupa, alguém só trazia um par de cuecas.
Agora já chega, que o mar e o vento está a levantar.
Motor +4h (Total 10h), Indicador – 18h
13:00h – Posição 38º54’,70N / 018º40’,10W – Rumo 270 – SOG 6kts – Vento 15/20kts NE / Vaga 2/3m N
Hoje chegamos ao ponto de não retorno – 420nm
03 de Março de 2011 – Dia Volvo Race
13:00h – Posição 38º50’,00 N / 022º00’00W – Rumo 272 – SOG 7kts – Motor total 25h
O skipper estava preguiçoso e então fez os membros da tripulação escrever o seu próprio diário de bordo.
Diário do Marco:
Com um sol caribeño no mar, o rádio tocava a playlist do Vasquinho, com sabores de latitudes mais aprazíveis. Boa disposição a bordo, abriu-se a garrafa de Bacardi 8 e o skipper ensaiou um betadine já que ainda não havia gelo.
Almoçámos um belo bacalhau à brás com um piquito de sal e passou-se uma bela tarde com bons ventos a empurrar-nos para os Açores.
Içou-se novamente a grande para aproveitar o vento e a navegação tornou-se mais exigente.
Com o caír da noite, escura como breu, a mareação ficou mais difícil. O skipper pôs toda a gente a “cantar” os ventos e a direcção para atinar com o rumo e evitar a cambadela.
No quarto de vigia da uma da manhã o Vasquinho foi um herói e aguentou estoicamente tudo o que o mar tinha para lhe dar: Chuva, ventos fortes e frio. A Carolina foi-lhe indicando o caminho e para resumir numa palavra: Dasssss!
A noite foi dura e cansativa mas pela manhão sol sorria outra vez e lançámos novamente a linha de pesca ao mar. Será que é hoje que se pesca a bordo? Veremos. Pequeno almoço tomado, o skipper foi preparar um pequeno almoço especial para a Carolina que dormia exausta de uma noite difícil. Motor ligado, vela grande recolhida e lá vamos nós rumo ao horizonte. Hoje vamos fazer uma corrida para os Açores ao estilo Volvo Ocean Race!
Diário da Carolina:
Sol, boa disposição e animação a bordo foi mais do que suficiente para ultrapassar o “apetitosíssimo” (... falando verdade ... salgado) bacalhau à brás...
A tarde foi avançando já com vela grande a voar.
Skipper e Marco foram descansar
O leme é entregue nas mãos da Tia com o olhar atento... muiito atento.... mesmo... do Vasco, que ao fim de aproximadamente hora e meia... pergunta ???
- Carol, estás cansada? ... Se estiveres... Diz............ he he he....
Jantar, preparou-se sandes para jantar e noite fora.... Sem sal ...!!!
Depois do 1º quarto, sossegado e calmo das 21:00 às 23:00, Vasco e Carol têm o verdadeiro momento oceânico: muita chuva... vaga, vento inconstante entre os 18 e os 26kts... com o leme de estibordo a dar “traques”... O Vasquinho após eu perguntar: “Queres que eu chame o skipper??... ”
O Vasquinho responde: “Deixa, ... a gente aguenta-se ...”
E aguentámo-nos!
Por volta da uma da manhã... o skipper quer o resumo e pergunta ao Vasquinho ... Que de imediato responde: “Queres...?? Queres o resumo?... Dassssse!”
Gargalhada geral e sente-se a união a bordo.
Depois de uma noite a cantar,... fazer café, verificar água nos paneiros, chega o descanso....
Quando acordei, tinha um fantástico pequeno almoço preparado pelo skipper (depois de chegar a acordo com o Vasquinho e Marco) uma fantástica salada de frutas com cenoura.
A noite passou e cá estamos a velejar (Agora sem vela grande...) com um sol fabuloso.....
Skipper durante a noite.... “Eu não gosto da “vida é bela” ... mas o que ela me trouxe foi o belo Vasco”
Diário do Vasco
Depois das duas páginas anteriores, plenas de requintes literários, escritas pelos meus camaradas e amigos Carol e Marco, pouco me resta para dizer sem tornar-me repetitivo. Vou referenciar apenas pequenos pormenores reveladores de como a vida a bordo do Rift em pleno Atlântico Norte vai mudando alguns dos nossos hábitos e capacidades.
A Carol para além dos 4 litros de leite já come alguns sólidos. Canta números como ninguém e tem futuro assegurado na Santa Casa.
O Marco está feito um marinheiro e hoje de manhã até arrumou o quarto. Sinal que ouve o que o skipper diz.
O Nuno deixou de utilizar o WC de popa e já usa o verdadeiro.
O Vasco já consegue meter o chá nas chávenas sem entornar.
Acabámos o dia a ouvir histórias do skipper.
Pesca não há e acho que descobri porquê: Os peixes devem estar a ler os suplementos do expresso.
04 de Março de 2011 – O dia da auto-estrada
13:00h – Posição 38º42’,70N / 025º11’,57W – Rumo 275º - SOG 7,1kts – Distancia para Terceira: 88,18nm – Motor: 29h Total; ETA Horta 12:00h 5Mar.
À tarde o mar parecia um lago/auto-estrada. Vento na alheta SE/10kts. Ligamos o motor e aí vamos nós, sol, mar chão, manda vir “betas”
Noite igual a ouvir os CDs do Vasquinho.
Skipper foi dormir às 20:00h acordou às 02:00h, encontra todos na alegre cavaqueira, o que diziam não me contaram.
Parte da noite navegamos à vela, outra parte a motor, estrelas, mar chão, às vezes 15/20kts, outras motor.
Vasquinho e Tia dormiram mais uma hora, entraram às 05:00h.
08:30h e fui chamado “à zona de comando” mas primeiro fui “aliviar-me”, pentear, lavar os dentes, etc, pois a limpeza é muito bonito.
O mar tinha subido e o vento também. Yuppiii, vai de fazer umas surfadas (em honra do homem da meteo, apoio terra, “big” Palex).
Almoço, carbonara, cagamelos, camarões, mas sem vinho (saca não há!) vai betas, hi hi hi.
À Tarde vamos começar nas limpezas apesar de estar tudo ok qué para o dono ficar contente e oferecer o jantar.
05 de Março de 2011 – Dia do Apiritiva e chegada
11:00h – Posição 38º33’,25N / 028º21’,50W – Rumo 314 – SOG – 6kts Distancia para Horta/Faial – 15nm, Motor: 52h total; Gasoleo – 100lts + Jerricans + ½ deposito; Água ½ depósito; Gás ½ garrafa.
Motor + motor + motor, sem vento, bahhhhhhhhhh.
Armador ligou nota excitação e convidou tripulação para jantar com ele (simpático).
ETA previsto 12/13h Lisboa
Pela tarde um dos marujos estava fatigado e foi descansar. Descansou, descansou e descansou. Voltou a descansar, continuou a descansar, prontos! O skipper teve que ir fazer o “apiritiva” acompanhado de um cházinho.
Noite estrelada.
1ª aproximação 02:00h da manhã Terceira.
2º canal de S. Jorge 07:00h da manhã.
Pequeno almoço, ovos mexidos com tostas sésamo e chá.
Há, acabou o rum e a coca-cola. Tentámos o outro rum com ananás: blearghhh!
Chegada ao Faial: uma hora antes de chegarmos, liga-nos o dono e tudo está bem. O skipper aproveita para pedir ao dono que nos leve um saca rolhas e um maço de SG Ventil, porque já não fuma há dois dias! O dono diz que vem ter conosco de semirrígido (com este cachão!!!).
O Marco vai lá abaixo e de repente uma onda manda a porta pelas escadas abaixo deixando marcas em tudo o que é sítio! Felizmente ninguém se magoou!
O clima a bordo gela e toda a gente fica com cara de enterro – Que chatice, mesmo na reta final e acontece uma cena destas!
Ligou-se ao Miguel a informar, e rezou-se pelo melhor. O skipper informou o Vasquinho que o barco ficou todo partido e quando o Vasquinho foi lá abaixo ver responde: “Foi só isto?”
Na aproximação à marina da Horta, o telefone toca e alguém pergunta: são vocês que vêm no canal? O Skipper responde: “quem é que acha que é? Há mais loucos a andar de veleiro nesta altura do ano?”
Aparece um semirrígido vermelho carregado de pessoas, com câmaras e tudo e a Carol pergunta: Será uma equipa da TVI?
O Dono sobe a bordo, cumprimenta toda a gente e a alegria é patente na sua cara.
O skipper mostra-lhe o barquito, conta o acidente com a porta e o dono diz: “Vou deixar ficar como está! São marcas de guerra!”. Suspiro geral a bordo!
Rift no finger da marina, aparecem os donos, os amigos, os miúdos, toda a gente! Alegria generalizada.
À noite, depois de uma banhoca na marina da Horta, jantar com os donos no Peter’s, contam-se as histórias da viagem, muito boa disposição.
No dia seguinte, banho aos tripulantes, banho ao Rift e toca a correr para o aeroporto mesmo a tempo de apanhar o vôo das 13:15. O Vasquinho e a Carol foram revistados de cima abaixo na entrada do aeroporto (os líquidos na bagagem são tramados).
Chegada a Lisboa e fizemos por cada 20minutos de vôo o equivalente a um dia de vela no mar, impressionante.
Despedidas, um hambúrguer no Pina, abraços e beijinhos e uma bela aventura que chegou ao fim.
terça-feira, 8 de março de 2011
Diário de Bordo-LIsboa - Açores- O transporte do parafuso
Diário de Bordo
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